Vidas Secas (1938)

Vidas Secas (1938), novela por Graciliano Ramos.

Sem revelações significativas do enredo.

Em pleno semiárido nordestino, no auge da seca que castiga as populações despossuídas, um pequeno grupo se desloca sob o sol inclemente. Traz consigo, além da roupa do corpo, apenas o que é possível carregar com a debilidade provocada por seguidos dias sem uma alimentação decente. Um dos meninos desmaia de fadiga. O pai tem de carregá-lo. A cadela, esperta, abocanha um preá, que servirá de refeição ao pequeno grupo. A mãe, exultante, chega a lamber o sangue do animal morto que escorre do focinho da cachorra.
É com este relato cru, num cenário de completa desolação, que Graciliano Ramos inicia a narrativa de Vidas Secas. Não é preciso de mais do que uma página para compreendermos a situação na qual se encontram aqueles personagens. Retirantes é o que eles são. A cada seca, se deslocam em busca de um lugar em que possam viver com menos sofrimento. São nômades, estão sempre de passagem. Eles mal falam, apenas grunhem, murmuram, como o papagaio de estimação do qual tiveram de se alimentar durante a viagem: uma ave de pequeno porte, quase sem carne e, além de tudo, muda. Na ocasião em que conhecemos essas figuras, elas encontram uma propriedade abandonada, onde decidem ficar. Mas tão logo finda a seca, o proprietário reaparece e os enxota. Sem alternativas, o vaqueiro Fabiano oferece os seus serviços braçais, em troca de permanecer com sua família na fazenda.
No entanto, é tudo questão de tempo até eles serem novamente expulsos pelas forças da natureza. No fundo, eles sabem disso, mas se agarram à vã esperança de que no próximo ano a seca não venha. Estão acostumados a essa vida inquieta, mas buscam afastar da mente o futuro inevitável. Além disso, estão acostumados também às violências e às injustiças do mundo. Fabiano, por exemplo, numa ida à cidade, acaba enfrentando o arbítrio das autoridades locais. Por supostamente desrespeitar um soldado, apanha e passa a noite na cadeia. As crianças e a cachorra, por sua vez, também estão habituadas aos cocorotes e pontapés dos adultos. O simpático animal, ironicamente nomeado de Baleia, é um personagem importante para a história, tendo inclusive um capítulo inteiro dedicado a ele, certamente o mais tocante.
Nesse sentido, o crítico literário Álvaro Lins é categórico ao afirmar que, em Vidas Secas, os personagens estão entregues ao seu próprio destino, não contando nem com a piedade do romancista*. Para Lins, apenas um personagem Graciliano trata com simpatia: a cadela Baleia. O capítulo com seu nome é, sem dúvida, o mais humano de todo o livro. O crítico ainda argumenta que a obra de Graciliano Ramos constitui-se como uma sátira violenta e um panfleto furioso contra a humanidade. O escritor alagoano fez questão de depositar em seus personagens de Angústia (1936) e São Bernardo (1934) características e traços de personalidade desprezíveis. Se, no caso de São Bernardo, o autor peca pela falta de verossimilhança, ao atribuir a um homem bruto como Paulo Honório os pensamentos que este apresenta ao leitor, o mesmo não ocorre em Vidas Secas. A vida interior de Fabiano, de Sinhá Vitória e dos dois meninos é confusa, desordenada e pouco elaborada.
Subjugados pelas forças da natureza, eles também precisam se sujeitar à opressão dos mais poderosos e do próprio Estado, que ali só está presente para recolher impostos sobre impostos, sem oferecer aos cidadãos nada em troca. Ao ser todo mês explorado pelo proprietário da fazenda, o vaqueiro sequer consegue expressar o seu descontentamento, limitando-se a dizer que as contas da mulher dão um valor diferente das do patrão. Este, sem sentir qualquer necessidade de uma explicação mais detalhada, justifica a diferença recorrendo a juros quaisquer, ameaçando o empregado com a dispensa caso insista em seus incômodos questionamentos.
Nessas circunstâncias, o cangaço chega mesmo a figurar como opção para o protagonista, que admite só não ter ingressado nele por ser mole. Em seu frenesi causado pela aproximação da seca, o homem chega a pensar que as arribações são a causa desta, quando na verdade a presença delas apenas anuncia aquilo que a família tanto teme. Desvairado, ele passa a atirar nas aves como se sua sobrevivência dependesse disso. No final, vemos se fechar um ciclo, unindo o início ao fim. Durante toda a trajetória dos retirantes, eles são atormentados por imagens do passado e pela incerteza do futuro.
De acordo com Álvaro Lins, talvez a melhor classificação tanto para Vidas Secas quanto para São Bernardo seja a de novela, pois, segundo ele, a substância e a forma nesses dois livros estão concentradas em uma única direção, dispostas para a revelação de um só drama ou episódio. Pode-se acrescentar, ainda, que são histórias mais de personagens do que exatamente de enredo. O interesse maior de Graciliano Ramos era o de explorar as nuances da psicologia humana, algo que faz admiravelmente bem em ambos os casos. A narração em terceira pessoa de Vidas Secas se mostra mais apropriada do que a introspecção de São Bernardo, uma vez que conta com personagens de origem ainda mais simples. Mesmo assim, o autor consegue explorar sua subjetividade de maneira eficiente, sem estigmatizá-los.
Passo importante na carreira de um escritor que se iniciou na literatura com uma obra considerada fraca pela crítica da época (o romance Caetés, de 1933), Vidas Secas tornou-se um clássico obrigatório. Mesmo já sendo um escritor consagrado antes de 1938, contando então com duas produções aclamadas, foi somente depois dessa excepcional novela que Graciliano gravou seu nome entre os mais importantes autores da literatura em língua portuguesa. Situando o leitor em um contexto em que não somente a seca é um perigo, mas também a cheia, que ameaça a integridade das casas e mata os animais com as inundações provocadas, o narrador não nos faz nenhuma concessão. Se o criador não sente pena de suas criações por estar projetado nelas, o leitor pode ao menos encarar o relato como denúncia social, mas dificilmente não lamentará o destino reservado àquela família. Caso isso não ocorra, resta apenas desejar que a simpática cachorrinha não encontre a mesma sorte que os outros animais vistos na história, devorados pelos impacientes urubus.  

*LINS, Álvaro. “Valores e Misérias das Vidas Secas”. Posfácio. In: RAMOS, Graciliano. “Vidas Secas”. 73ª Edição. Rio, São Paulo: Record, 1998, pp. 127-155.

Avaliação: 5/5


Renan Almeida, 5 de janeiro de 1995, é natural do Distrito Federal e mestrando em Ciência Política na Universidade de Brasília. Apaixonado por cinema, literatura e quadrinhos, escreve resenhas e análises sobre obras desses três tipos de mídia. É também colaborador frequente dos sites Papo Torto e Blah Cultural.

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