O Feijão e o Sonho (1938)

O Feijão e o Sonho (1938), romance por Orígenes Lessa.

Sem revelações significativas do enredo.

            O protagonista de O Feijão e o Sonho chega a irritar o leitor em alguns momentos, tamanha a sua incapacidade de lidar com os problemas cotidianos de sua família. Poeta com um grande sucesso publicado, Campos Lara é um homem que vive sonhando. Apesar das dificuldades que enfrenta ao lado da esposa e dos três filhos (quando se inicia a história), ele não consegue ser um homem prático e usar seus talentos e inteligência em prol de uma vida financeira mais favorável. Ao contrário, o poeta é professor de uma pequena escola em uma cidade do interior, onde dá aulas a um reduzido número de alunos, cujos pais frequentemente atrasam o pagamento das mensalidades. Sua esposa, Maria Rosa, apesar de geralmente ser a voz da razão e do bom senso na casa, é uma mulher amarga, desagradável e com um gênio ruim.
            Na verdade, acompanhamos uma história que se passa durante boa parte numa cidade do interior habitada por gente pouco instruída e de mentalidade limitada, que, ao avistar um sujeito caminhando sozinho, é capaz de taxá-lo de louco. Em um cenário de uma sociedade ainda bastante racista e xenofóbica, Campos Lara, mesmo com sua incapacidade para a vida prática (que se traduz, em muitos momentos, numa completa falta de noção), acaba ganhando a simpatia do leitor por ser praticamente o único personagem que não se apresenta como mesquinho e/ou detestável. Se, no início, o vemos com desconfiança, ao longo do romance passamos a admirar seu caráter e a entender seu modo de encarar o mundo. Assim, com o passar do tempo, passamos a enxergar os seus atos de outra forma.
Em uma época em que a instrução e a educação formal não contavam muito, Maria Rosa chega a desejar que os filhos, ao invés de se dedicarem aos estudos, comecem a trabalhar. Com o conhecimento de que muitos poetas e escritores de renome viveram vidas miseráveis, a mulher reza para que nenhum dos pequenos adquira interesse pelos versos ou pela prosa. De fato, a vida de escritor costuma ser amarga, e outros exemplos poderiam ainda ser acrescentados àqueles mencionados pela esposa do poeta. O grande contista norte-americano Edgar Allan Poe, inclusive, foi um homem com uma vida curta e conturbada, tendo lidado com o alcoolismo e enfrentado inúmeras tragédias pessoais, acabando por morrer pobre e sozinho. Como todo escritor ou aspirante a escritor deve saber, a escrita é como uma maldição: aquele que a ela se dedica há de fazer isso pelo resto de sua vida. Maria Rosa, quase como uma voz interior da razão ao longo de todo o romance, está certa ao apontar a vaidade dos escritores. Vaidade esta que, fatalmente, Campos Lara irá reconhecer em si próprio. Não se trata de uma preocupação excessiva com a própria aparência. Não, não é uma vaidade física, mas intelectual. Se assim não fosse, o protagonista não insistiria em manter relações com outros literatos que, exatamente como faziam os habitantes da pequena cidade de Capinzal, o maldizem pelas costas. A única diferença é que os intelectuais da metrópole enchem-no de elogios, afagando seu ego. Desse modo, fica fácil entender o porquê de Campos Lara encontrar justamente em um barbeiro semianalfabeto com aspirações literárias um interlocutor.
Nesse contexto, acompanhamos, em O Feijão e o Sonho, a vida de sofrimento quase ininterrupto desse casal, causado principalmente – mas não exclusivamente – pela sua situação financeira. Quando se inicia a história, ambos já estão acomodados naquela condição, acostumados um ao outro e à vida que levam. Vemos, contudo, os eventos que os levaram até ali e o desenrolar de sua trajetória. O arco dramático do protagonista é, provavelmente, a maior qualidade deste romance. Orígenes Lessa, jornalista e autor de vários livros de contos, novelas e romances, é bastante eficaz ao retratar o dilema de todo aquele que se dedica à escrita, uma atividade que, apesar de se constituir como uma verdadeira paixão para aqueles que a exercem, dificilmente traz um bom retorno financeiro. O romance, assim, compreende muito bem a miséria dos escritores.
Contudo, ele não deixa de ser um produto de sua época, uma época em que a divisão sexual do trabalho ainda imperava como norma absoluta de organização da vida familiar. Vemos, por exemplo, Maria Rosa, mesmo grávida, tendo de executar as tarefas domésticas. É claro que o fato de as mulheres ainda serem primariamente as responsáveis pelas tarefas relacionadas à manutenção do lar e ao cuidado de outros integrantes da família nos diz que pouco avançamos no sentido de uma distribuição mais igualitária do trabalho doméstico, mas é impossível não reconhecer que a sociedade de hoje não é a mesma daquela da década de 1930. Nesta, a sugestão de contratar uma menina para trabalhar como empregada doméstica é vista com naturalidade. Hoje, por mais que o trabalho infantil ainda seja uma realidade, ele não é mais tolerado e nem visto como natural. Infelizmente, porém, o reconhecimento de Campos Lara e de Maria Rosa de que homem vence mais facilmente na vida (algo que os faz inclusive torcer para que o último de seus filhos seja menino), ainda se mostra verdadeiro nos dias atuais.
O Feijão o Sonho foi para mim uma verdadeira surpresa. Guardado há anos em minha estante, eu o ignorei contrariando justamente o velho ditado popular segundo o qual não se deve julgar um livro pela capa. Por mais simples que seja, o romance de Lessa possui alguns momentos marcantes, como aquele envolvendo um relógio de parede ou aqueloutro no qual o protagonista se coloca contra o mexerico de toda uma cidade. Ademais, quando lido por um aspirante a escritor, o livro pode se tornar ainda mais interessante com um simples exercício imaginativo: eu, no lugar de Campos Lara, agiria diferente? Entre a quitação de uma dívida com o açougueiro e a compra de uma edição comentada de Crime e Castigo, qual dos dois eu escolheria?

Avaliação: 4/5


Renan Almeida, 5 de janeiro de 1995, é natural do Distrito Federal e mestrando em Ciência Política na Universidade de Brasília. Apaixonado por cinema, literatura e quadrinhos, escreve resenhas e análises sobre obras desses três tipos de mídia. É também colaborador frequente dos sites Papo Torto e Blah Cultural.

Comentários

Postagens mais visitadas