Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915)

Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915), romance por Lima Barreto.

Sem revelações significativas do enredo.

Como começar a falar sobre Triste Fim de Policarpo Quaresma? A princípio e superficialmente, é apenas um livro sobre as excentricidades de um homem extremamente nacionalista, mas quando se busca analisá-lo com maior profundidade, encontra-se margem para discussão sobre os mais variados temas. Nesse sentido, o que pretendo aqui é justamente abordar alguns desses temas, sem, é claro, a ilusão de esgotá-los neste breve texto.
            Devo observar, primeiramente, que a leitura de Lima Barreto sempre me foi recomendada por diferentes pessoas. E é sem orgulho nenhum que admito ter postergado essa leitura por considerável período de tempo. Foi somente neste ano de 2017 que adquiri o romance hoje objeto de resenha. No fim das contas, porém, talvez não tenha sido de todo ruim a demora que levei para ter contato com a obra do escritor em questão. Se o tivesse lido durante o final da adolescência, no ensino médio, é possível que tivesse perdido a dimensão da importância desta que é considerada a sua obra máxima.
            Tendo feito essas considerações, é conveniente questionar: quem é Policarpo Quaresma? “Você, Quaresma, é um visionário”. Antes de tudo, é um personagem inacreditável. Inacreditável no sentido de extraordinário, impressionante. Um funcionário público de meia idade que, após anos de estudos sobre a geografia e cultura do Brasil, chega ao ato extremo de patriotismo de apresentar à Câmara dos Deputados um requerimento propondo que o tupi torne-se a língua oficial do país. A exemplo daquilo que sucede na ficção, só nos restaria rir de um sujeito como esse. Quaresma, contudo, é um homem tão simples e tão bem intencionado em seus propósitos que é praticamente impossível não criarmos empatia por ele e nos irritarmos com seus detratores. Ele é tão fora da realidade que é mesmo incapaz de compreender o motivo pelo qual vira motivo de chacota entre os ilustres deputados. Alvo de piadas e zombarias também em seu ambiente de trabalho, a irritação de Quarema com os colegas não é por estes caçoarem da ideia contida no tal requerimento, mas sim por eles duvidarem de sua capacidade de efetivamente falar o idioma (o que mostra como o homem realmente não consegue compreender o absurdo de sua proposição). É com o objetivo de provar a sua fluência que, sem pensar, o major submete aos seus superiores um documento redigido integralmente em tupi. Acompanhamos, então, as consequências desses atos e os acontecimentos que levarão o personagem ao triste fim anunciado no título do livro.
            O romance narra a vida da alta sociedade suburbana carioca. Uma alta sociedade que, conforme pontua o narrador, só é alta nos subúrbios. Ela é composta majoritariamente por burgueses, que ganharam a vida com o comércio, e por funcionários públicos, gente que acumulou recursos e desfruta de uma vida confortável e mediana. Estão aí inclusos uma galeria de militares como o General Albernaz, homens que nunca viram a guerra, mas entretêm seus interlocutores com histórias sobre batalhas nas quais jamais estiveram. Trata-se, em suma, de gente com mentalidade limitada a ponto de acreditar que um homem não formado não deve se dedicar à leitura e aos estudos, atividades que, de acordo com essas pessoas, devem ser reservadas apenas aos acadêmicos. Assim, Dona Maricota, a esposa de Albernaz, chega a culpar os livros pela suposta loucura dos atos de Quaresma.
Barreto, a propósito, utiliza-se deste romance para delinear uma crítica às instituições militares (e ao funcionalismo público em geral), ressaltando como as comissões, que deveriam ser por merecimento, acabam sendo dadas aos protegidos.  Além dos sutis comentários sobre a desigualdade socioeconômica, está presente uma reflexão sobre a condição das mulheres no final do século dezenove. Ismênia, filha do mencionado General Albernaz, é um exemplo de uma leva de mulheres cuja criação foi totalmente voltada para o casamento. Desprovida de quaisquer outros objetivos na vida, ela reflete a própria situação das mulheres das classes média e alta nesse período. O narrador, inclusive, reforça a mensagem quando afirma que as moças são levadas ao casamento como que por inércia, sem que haja amor aí envolvido.  
            O romance também acerta ao retratar o governo de Floriano Peixoto como ele de fato era: uma ditadura. O segundo presidente da república, aliás, é personagem do livro, sendo referido, sem cerimônias, pela palavra “ditador”. Nada mais apropriado, uma vez que a perseguição política era rotina para quem quer que ousasse criticar o governo, correndo o risco de perder o emprego, a liberdade ou mesmo a vida. Apesar do completo desastre de tal governo, com todo o seu autoritarismo e instabilidade, Barreto sugere que a fidelidade a ele dependeu mais do alcance de posições e cargos em seu interior do que de qualquer outra coisa. Nada poderia ser mais atual no Brasil pós-golpe de 2016, não é mesmo? O paralelo com o Brasil atual talvez possa ser traçado também na crítica de Barreto ao que ele chama de “nefasto e hipócrita positivismo”. Afinal, uma das primeiras medidas de Michel Temer ao assumir a presidência não foi justamente mudar o lema do governo para o “ordem e progresso” presente na bandeira nacional? Isso sem falar no péssimo e autoritário slogan “Não pense em crise, trabalhe!”, no qual o governo golpista investiu para reforçar na mente dos trabalhadores a necessidade de manutenção da ordem.
            Em outras palavras, Triste Fim de Policarpo Quaresma é excelente em identificar vícios que até hoje se reproduzem na sociedade brasileira. Quando, por exemplo, o protagonista se muda para o interior do país e, mesmo sem se interessar por política, acaba sendo alvo de ataques dos caciques locais, o romance nos mostra como figuras poderosas se utilizam de sua posição no Estado para intimidar potenciais adversários e conseguirem seus objetivos. Ele nos diz que os governantes não governam pelo povo, mas sim por eles próprios, para a consecução de seus próprios interesses particulares. Apesar de o autor se utilizar de uma abordagem mais direta (seja ao tratar Floriano como ditador, ao caracterizar o positivismo como nefasto e hipócrita ou ao lembrar como nós “vivemos do Estado”), todos esses comentários políticos e sociais não surgem ao acaso, mas sim aparecem de forma orgânica ao longo da narrativa. A obra pode ser vista como um retrato fidedigno do Brasil da primeira república, mas acaba trazendo questões bastante atuais, o que evidencia a nossa dificuldade em resolver nossos problemas ao longo do tempo.
Somente para não perder a oportunidade, devo mencionar o marido de Olga Coleoni, a afilhada de Quaresma. Esse personagem é uma referência à presunção e arrogância dos acadêmicos sem conteúdo, que investem em floreios gramaticais para comunicar ideias sem importância. Acabam, assim, por impressionar aqueles que os leem. Mais uma vez, Barreto é incrivelmente atual, principalmente quando lembramos o quanto determinados setores da sociedade brasileira se deixam impressionar pelas mesóclises na retórica vazia de Temer.
Como reflexão final, podemos falar da discussão sobre nacionalismo que Lima Barreto nos propõe. O Triste Fim de Policarpo Quaresma é um ótimo exemplo de como muitas vezes a ficção pode contribuir para fomentar diferentes debates. O romance nos mostra a artificialidade por trás do nacionalismo, um construto ideológico que serve a objetivos específicos. Nos Estados Unidos, por exemplo, a reivindicação de uma identidade nacional levou ao imperialismo e ao genocídio de inúmeros indígenas. Nas guerras, também, a mobilização de tais signos é fundamental. E se as terras brasileiras não são realmente as mais férteis do mundo, o povo brasileiro o mais virtuoso, a nação brasileira a mais rica entre todas as outras, então a quem interessa esse discurso?

Avaliação: 5/5


Renan Almeida, 5 de janeiro de 1995, é natural do Distrito Federal e mestrando em Ciência Política na Universidade de Brasília. Apaixonado por cinema, literatura e quadrinhos, escreve resenhas e análises sobre obras desses três tipos de mídia. É também colaborador frequente dos sites Papo Torto e Blah Cultural.

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