Logan (2017)

Logan (2017), longa-metragem dirigido por James Mangold, escrito por Michael Green, Scott Frank e James Mangold, com atuações de Hugh Jackman, Patrick Stewart, Boyd Holbrook, Dafne Keen, entre outros.

Sem spoilers, mas algumas informações podem incomodar os mais sensíveis. Se for destes, é melhor ler após assistir ao filme.
 
        Após dezessete anos interpretando o Wolverine, Hugh Jackman finalmente se despede do personagem neste último filme. Apesar de adorá-lo, o ator australiano já afirmou que é bastante complicado atingir o físico adequado para interpretá-lo nas telonas. E com o passar do tempo, essa dificuldade tem aumentado. Isso não é novidade: vimos Arnold Schwarzenegger enfrentar o mesmo tipo de problema quando teve de malhar para alcançar o mesmo peso e massa muscular que possuía em 1984 para voltar ao papel de T-800 no péssimo Exterminador do Futuro: Gênesis, de 2015. É, a idade chega para todo mundo, e é interessante que isso seja verdade até mesmo para o Wolverine. Abatido física e moralmente, o antigo membro dos X-Men chega a ter dificuldades inclusive para acionar suas garras de adamantium, que saem de seu corpo lentamente e emperrando.
            O estado de espírito de Logan nos é familiar: já o víramos assim em seu filme anterior. Em resumo, trata-se de um homem amargurado e desgostoso da vida, que bebe incessantemente e parece buscar a própria morte. Apesar da comparação, este Logan (filme) é imensamente superior ao que o antecede. Dessa vez, Logan (personagem), um dos únicos mutantes ainda vivos, presta serviços de transportes para todos os tipos de clientes e cuida de um debilitado Charles Xavier. A relação entre os dois, inclusive, é um dos pontos mais altos do filme. Compreendendo bem seus personagens – afinal de contas, os interpretam há considerável período de tempo –, Jackman e Stewart podem aqui explorar outros lados destes. Xavier já não é mais o mesmo, e além de possuir uma doença degenerativa, não controla mais totalmente seus poderes. Fazendo jus à classificação indicativa do filme (que no Brasil é de 16 anos), o professor X chega inclusive a soltar alguns palavrões. Apesar disso, pode-se notar que aquele bom homem que conhecemos nos filmes dos X-Men ainda existe, e isso é evidenciado nos momentos em que ele tenta proteger a garotinha nada indefesa Laura, a arma X-23. Chama atenção como ele, por exemplo, pede a Logan que maneire nos palavrões perto da garota. Boa parte do alívio cômico do longa provém da interação desses dois personagens veteranos e adorados.
            É impossível tentar compreender como esse filme se encaixa na cronologia confusa da franquia, principalmente após os eventos de Wolverine Imortal e X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido. Contudo, tal ponto nunca foi o forte dessa saga, mesmo nos quadrinhos. Assim, Logan funciona muito melhor como um filme “independente”, que traz referências nostálgicas aos eventos e personagens anteriores. Na verdade, parece ter sido essa mesma a intenção dos roteiristas Michael Green e Scott Frank e do diretor (que também assina o roteiro) James Mangold. Não temos, portanto, um filme de super-herói que segue a “fórmula” dos antigos, mas algo que, em alguns momentos, se assemelha a um road-movie com mutantes. E isso de forma alguma é um ponto negativo. O ritmo mais lento talvez incomode alguns, mas imagino que as cenas de ação e a violência gráfica (que é muita, mas não gratuita) compensarão.
            Boyd Holbrook convence como vilão nos primeiros momentos em que aparece, mas depois é logo mostrado como um simples subordinado (talvez isso possa ser considerado um pequeno spoiler, mas não acho que isso comprometa a experiência de alguma forma). Mesmo assim, funciona, na maioria das vezes, como um bom antagonista. Dafne Keen como X-23 é muito boa, e a violência com que ataca seus inimigos é incrível, assim como a fluência de seus movimentos. A garota, mesmo sem falar durante mais da metade do filme, acaba roubando a cena em muitos momentos.
            Sim, o filme é bom, mas não é perfeito. Em determinado momento da história, por exemplo, um vídeo explicando tudo o que Logan precisava saber sobre o passado de Laura é encontrado por ele e expõe os acontecimentos de forma um tanto absurda, usando ângulos de câmera improváveis e capturando diálogos e situações igualmente improváveis. Nesse momento, fiquei realmente me questionando se a autora de tal vídeo teria gastado tempo editando-o e renderizando-o para depois o protagonista assisti-lo. Não é um problema tão sério, mas me incomodou pela inverossimilhança e conveniência do roteiro. Em outro momento, alguns personagens, que talvez pudessem usar suas habilidades para se livrarem de seus perseguidores, acabam não fazendo isso imediatamente; quando isso finalmente acontece, o espectador chega a pensar: “nossa, por que não fizeram isso antes?”. A resposta é simples: para criar um clima de tensão e prolongar a duração da cena.
         Finalmente, Logan é uma boa despedida a esses atores tão queridos e carismáticos que interpretam pela última vez seus igualmente queridos personagens. Logan vem sofrendo desde o primeiro filme dos X-Men, física e emocionalmente, e todos desejam que ele enfim encontre alguma paz. 

Avaliação: 4/5


Originalmente publicado no blog Pensamento Impuro.



Renan Almeida, 5 de janeiro de 1995, é natural do Distrito Federal e mestrando em Ciência Política na Universidade de Brasília. Apaixonado por cinema, literatura e quadrinhos, escreve resenhas e análises sobre obras desses três tipos de mídia. É também colaborador frequente dos sites Papo Torto e Blah Cultural.

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